Na nossa primeira aula de Universidade e Sociedade vimos
dois documentários bastante interessantes “Ilha das Flores” de Jorge Furtado e “Boca
de Lixo” de Eduardo Coutinho, ambos, com o mesmo embasamento, porém a partir de
realidades mostradas de diferentes formas. O primeiro a realidade é mostrada de
forma intelectualizada, o segundo podemos ver e sentir com mais profundidade a
realidade da vida das pessoas naquele ambiente.
O tema é o lixo e as pessoas que subsistem dele.
Quando vi o documentário chamado “Ilha das Flores” pude
refletir a respeito de uma parte da população que vivia através do lixo. Ali,
na Ilha das Flores as pessoas sobreviviam de forma desumana – Quando um porco
pode ser preferido a uma criança - A desigualdade era tamanha que o animal
chegava a ter mais prioridade do que o ser humano na alimentação, por exemplo.
Um absurdo que uma pessoa, além de comer o que está no lixo, ter ainda que
comer o que não serviu ao porco. Situação essa que comprova que o porco estava à
frente de mulheres e crianças na escala de importância.
O documentário mostra também o quanto há diferença entre o ser humano
que tem o poder (dinheiro), como o dono do terreno e dos porcos e aquele que
não tem como as mulheres e crianças da Ilha das Flores. Pessoas vivendo
literalmente do lixo, não só quanto ao reaproveitamento de materiais, mas
também quanto à alimentação. Isto pode
ser explicado pela existência da desigualdade social e da diferença de classes
em nossa sociedade. Ou melhor, isto não poderia ser explicado, já que a situação
contraria totalmente os direitos do cidadão: acesso à justiça, alimentação adequada, comunicação social, direito a habitação, direito
a informação, direito do idoso... (http://www.pgr.mpf.mp.br/areas-de-atuacao/direitos-do-cidadao-1).
Isto não deveria acontecer.
Mas... A desigualdade social é uma realidade evidente no Brasil. E em
alguns lugares isto toma maior proporção do que em outros.
A desigualdade de classes ganha notoriedade quando vemos os
funcionários do dono dos porcos, controlarem o tempo que mulheres e crianças
possuem para pegar o que sobrou que não serviu para o porco para se alimentarem.
Esse fato mostra claramente a diferença entre uma pessoa que
possui “o poder” e uma que não o possui. A diferença na vida de pessoas que tem
condições de terem uma vida adequada e aquelas pessoas que não tem como as
mulheres e crianças da Ilha das Flores.
A realidade de quem subsiste numa sociedade desigual e injusta,
de pessoas que vivem a beira da sociedade detentora do poder, pessoas que não
se mostram, conformadas com o nada que lhes é proporcionado. Uma parte da
população que não tem força, a parte mais fraca, a minoria que não se mostra e
que não participa do processo, que não participa como cidadão de uma sociedade
que para eles é utópica. Que dela não nada aproveitam, que vivem conformados em
seus submundos, injustiçados e sem expectativa de melhoria.
Assim como elas existem milhares de pessoas que sobrevivem
de maneira inadequada, a margem da sociedade e sem esperança de que um dia
possam viver de maneira decente, com todos os direitos que todo individuo
deveria ter a chance de desfrutar. Com liberdade.
"Liberdade: Uma palavra que o sonho humano alimenta e que não ninguém que explique e ninguém que não entenda." Cecília Meirelles
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| Catando lixo na Ilha das Flores |
"O que coloca os seres humanos da Ilha das Flores numa posição posterior aos porcos na prioridade de escolha de materiais orgânicos é o fato de não terem dinheiro nem dono. Os humanos se diferenciam dos outros animais pelo telencéfalo altamente desenvolvido, pelo polegar opositor e por serem livres. Livre é o estado daquele que tem liberdade. Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda."
O segundo documentário traz a tona o vazadouro de Itaoca e
pudemos ver melhor cada pessoa, como cada uma se sente ou enxerga o mundo. No
Boca de Lixo o sujeito é mostrado, podemos perceber a realidade de cada pessoa,
o modo como cada uma vive e observar a expectativa de cada um.
E qual a perspectiva de quem vive em uma condição tão baixa
com relação à qualidade de vida que lhe é proporcionada?
Tenho a impressão que são as mais baixas possíveis.
Como por exemplo, dona Cícera que deposita sua esperança na
filha quando diz que espera o dia em que a filha poderá se libertar daquela
vida e viver o sonho de ser cantora. Dona Cícera não demonstra nenhuma expectativa
de mudança de vida para ela.
Enquanto uns fogem do lixo outros correm em direção a ele. É
irônico quando percebemos isto, pessoas, gente como a gente, sobrevivendo
daquilo que jogamos fora. Algumas pessoas não suportam o mau cheiro, outros
vivem dele e já não se importam com a situação. Uns estão lá porque queriam,
preferiam ficar lá a ter alguém mandando neles. Eles já se adaptaram, não sentem vergonha e
dizem que não estão matando e nem roubando, estão trabalhando. Não tem vergonha
de se mostrar como o marido de Lúcia que disse: “Sou brasileiro, sou humano
então eu sou livre.”.
É livre e ao mesmo tempo preso, pois se encontra naquela
vida de catador de lixo, sendo produtos do desemprego. A liberdade que o marido
de Lúcia se refere é diferente da liberdade que a dona Cícera se refere.
Dali eles comem, reaproveitam objetos, vendem materiais e
assim tiram seu sustento. Ali onde todos se conhecem e mantêm uma vida social.
Gente como a gente, mas que não vive com a gente. Estão ali vivendo a realidade
do desemprego, expostas a todos os riscos que acompanham o lixo.
“O final do serviço é o lixo, ali é o final e é dali que começa.
Findou ali, mas depois que o lixo chega ali, continua, continua pra mais longe
e ainda dá muita coisa.”
Que para uma parte da sociedade o lixo é o fim, para eles o
lixo é o começo. E que o final de todo serviço é o lixo.
As reflexões que podemos ter a partir desses dois excelentes
documentários são muitas.
A proposta é mostrar duas identidades gerais através dos
documentários, uma em que não é mostrado o sujeito e outra em que o sujeito é mostrado.
Bem como mostra também a realidade de quem subsiste do lixo. Assim a proposta
da universidade é que os alunos como sujeito se mostrem e que possam participar
do processo.
Sim, participarmos, nos mostrarmos como pessoa, como cidadão,
sermos protagonistas que dentro de uma Universidade tem a chance de crescer e
conduzir-se por um novo caminho. Caminho que trará novas oportunidades, que nos
fará refletir mais, ter novas e melhoradas percepções, produzir mais. Mostrar-nos,
de dentro para fora, nos permitir ir além, mudar opiniões, quebrar paradigmas.
Até mesmo conhecer pontos em nós que até então não conhecíamos. Fazer realmente
parte deste universo maravilhoso que é a Universidade. Sim, maravilhoso para
mim, uma chance que devo, como estudante, procurar usar da melhor maneira possível,
absorvendo tudo o que puder para minha evolução e é claro colaborando para a
comunidade.
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| Os catadores vendo o documentário |
Link Interessante: http://www.portalresiduossolidos.com/lixao-vazadouro-a-ceu-aberto/
Poema que serve para reflexão:
O Bicho
Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.
poema de Manuel Bandeira: O BICHO.
poema de Manuel Bandeira: O BICHO.
Escrito em 1947, é objeto de reflexão para as pessoas que vivem de catar lixo, mesmo depois de tanto tempo o poema não deixa de ser atual.



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