segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Ilha das Flores e Boca de Lixo

Na nossa primeira aula de Universidade e Sociedade vimos dois documentários bastante interessantes “Ilha das Flores” de Jorge Furtado e “Boca de Lixo” de Eduardo Coutinho, ambos, com o mesmo embasamento, porém a partir de realidades mostradas de diferentes formas. O primeiro a realidade é mostrada de forma intelectualizada, o segundo podemos ver e sentir com mais profundidade a realidade da vida das pessoas naquele ambiente.
O tema é o lixo e as pessoas que subsistem dele.
Quando vi o documentário chamado “Ilha das Flores” pude refletir a respeito de uma parte da população que vivia através do lixo. Ali, na Ilha das Flores as pessoas sobreviviam de forma desumana – Quando um porco pode ser preferido a uma criança - A desigualdade era tamanha que o animal chegava a ter mais prioridade do que o ser humano na alimentação, por exemplo. Um absurdo que uma pessoa, além de comer o que está no lixo, ter ainda que comer o que não serviu ao porco. Situação essa que comprova que o porco estava à frente de mulheres e crianças na escala de importância.
O documentário mostra também o quanto há diferença entre o ser humano que tem o poder (dinheiro), como o dono do terreno e dos porcos e aquele que não tem como as mulheres e crianças da Ilha das Flores. Pessoas vivendo literalmente do lixo, não só quanto ao reaproveitamento de materiais, mas também quanto à alimentação.  Isto pode ser explicado pela existência da desigualdade social e da diferença de classes em nossa sociedade. Ou melhor, isto não poderia ser explicado, já que a situação contraria totalmente os direitos do cidadão: acesso à justiça, alimentação adequada, comunicação social, direito a habitação, direito a informação, direito do idoso... (http://www.pgr.mpf.mp.br/areas-de-atuacao/direitos-do-cidadao-1). Isto não deveria acontecer.
Mas... A desigualdade social é uma realidade evidente no Brasil. E em alguns lugares isto toma maior proporção do que em outros.
A desigualdade de classes ganha notoriedade quando vemos os funcionários do dono dos porcos, controlarem o tempo que mulheres e crianças possuem para pegar o que sobrou que não serviu para o porco para se alimentarem.
Esse fato mostra claramente a diferença entre uma pessoa que possui “o poder” e uma que não o possui. A diferença na vida de pessoas que tem condições de terem uma vida adequada e aquelas pessoas que não tem como as mulheres e crianças da Ilha das Flores.
A realidade de quem subsiste numa sociedade desigual e injusta, de pessoas que vivem a beira da sociedade detentora do poder, pessoas que não se mostram, conformadas com o nada que lhes é proporcionado. Uma parte da população que não tem força, a parte mais fraca, a minoria que não se mostra e que não participa do processo, que não participa como cidadão de uma sociedade que para eles é utópica. Que dela não nada aproveitam, que vivem conformados em seus submundos, injustiçados e sem expectativa de melhoria.
Assim como elas existem milhares de pessoas que sobrevivem de maneira inadequada, a margem da sociedade e sem esperança de que um dia possam viver de maneira decente, com todos os direitos que todo individuo deveria ter a chance de desfrutar. Com liberdade.

"Liberdade: Uma palavra que o sonho humano alimenta e que não ninguém que explique e ninguém que não entenda." Cecília Meirelles

Catando lixo na Ilha das Flores



Trecho do documentário que serve para reflexão:

"O que coloca os seres humanos da Ilha das Flores numa posição posterior aos porcos na prioridade de escolha de materiais orgânicos é o fato de não terem dinheiro nem dono. Os humanos se diferenciam dos outros animais pelo telencéfalo altamente desenvolvido, pelo polegar opositor e por serem livres. Livre é o estado daquele que tem liberdade. Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda." 

O segundo documentário traz a tona o vazadouro de Itaoca e pudemos ver melhor cada pessoa, como cada uma se sente ou enxerga o mundo. No Boca de Lixo o sujeito é mostrado, podemos perceber a realidade de cada pessoa, o modo como cada uma vive e observar a expectativa de cada um.
E qual a perspectiva de quem vive em uma condição tão baixa com relação à qualidade de vida que lhe é proporcionada?
Tenho a impressão que são as mais baixas possíveis.
Como por exemplo, dona Cícera que deposita sua esperança na filha quando diz que espera o dia em que a filha poderá se libertar daquela vida e viver o sonho de ser cantora. Dona Cícera não demonstra nenhuma expectativa de mudança de vida para ela.
Enquanto uns fogem do lixo outros correm em direção a ele. É irônico quando percebemos isto, pessoas, gente como a gente, sobrevivendo daquilo que jogamos fora. Algumas pessoas não suportam o mau cheiro, outros vivem dele e já não se importam com a situação. Uns estão lá porque queriam, preferiam ficar lá a ter alguém mandando neles.  Eles já se adaptaram, não sentem vergonha e dizem que não estão matando e nem roubando, estão trabalhando. Não tem vergonha de se mostrar como o marido de Lúcia que disse: “Sou brasileiro, sou humano então eu sou livre.”.
É livre e ao mesmo tempo preso, pois se encontra naquela vida de catador de lixo, sendo produtos do desemprego. A liberdade que o marido de Lúcia se refere é diferente da liberdade que a dona Cícera se refere.
Dali eles comem, reaproveitam objetos, vendem materiais e assim tiram seu sustento. Ali onde todos se conhecem e mantêm uma vida social. Gente como a gente, mas que não vive com a gente. Estão ali vivendo a realidade do desemprego, expostas a todos os riscos que acompanham o lixo.
“O final do serviço é o lixo, ali é o final e é dali que começa. Findou ali, mas depois que o lixo chega ali, continua, continua pra mais longe e ainda dá muita coisa.”
Que para uma parte da sociedade o lixo é o fim, para eles o lixo é o começo. E que o final de todo serviço é o lixo.
As reflexões que podemos ter a partir desses dois excelentes documentários são muitas.
A proposta é mostrar duas identidades gerais através dos documentários, uma em que não é mostrado o sujeito e outra em que o sujeito é mostrado. Bem como mostra também a realidade de quem subsiste do lixo. Assim a proposta da universidade é que os alunos como sujeito se mostrem e que possam participar do processo.
Sim, participarmos, nos mostrarmos como pessoa, como cidadão, sermos protagonistas que dentro de uma Universidade tem a chance de crescer e conduzir-se por um novo caminho. Caminho que trará novas oportunidades, que nos fará refletir mais, ter novas e melhoradas percepções, produzir mais. Mostrar-nos, de dentro para fora, nos permitir ir além, mudar opiniões, quebrar paradigmas. Até mesmo conhecer pontos em nós que até então não conhecíamos. Fazer realmente parte deste universo maravilhoso que é a Universidade. Sim, maravilhoso para mim, uma chance que devo, como estudante, procurar usar da melhor maneira possível, absorvendo tudo o que puder para minha evolução e é claro colaborando para a comunidade.

Os catadores vendo o documentário



Poema que serve para reflexão:

O Bicho
Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.

poema de Manuel Bandeira: O BICHO.
Escrito em 1947, é objeto de reflexão para as pessoas que vivem de catar lixo, mesmo depois de tanto tempo o poema não deixa de ser atual.


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